Cine-Fórum

No mês de setembro o filme que destaco é "A opinião pública", de Arnaldo Jabor.


A opinião pública  1967/PB/Doc/72 min. Direção: Arnaldo Jabor 


Por meio de depoimentos de estudantes, a classe média carioca é retratada de maneira a salientar seus gestos, seus gostos, e sobretudo sua distância frente a realidade brasileira.
Diferentemente da maioria dos filmes produzidos sobre o Rio de Janeiro na década de 1960, este não está interessado nas paisagens nem nos estereótipos do carioca. Ao contrário, é com prazer quase voyeurístico que Arnaldo Jabor se infiltra em apartamentos de Copacabana, numa imunda república de estudantes da Lapa, num terreiro de candomblé, numa boate superlotada, no circo de milagres de uma curandeira de subúrbio.
A câmera de Dib Lutfi em A opinião pública cola à pele das pessoas para tentar alcançar uma espécie de terceira dimensão – aquela tridimensionalidade que se constrói no ato da fala, da dança, do delírio coletivo. Mais que uma imagem da cidade, este marco do documentário brasileiro sai à procura da expressão de uma classe. É a classe média, vista como a grande responsável pelas contradições expostas pelo Cinema Novo. O imobilismo político em troca da mobilidade social, o culto às celebridades, o vazio de projetos, tudo o que Jabor detectou na classe média carioca certamente já estava num diagnóstico prévio do realizador.






Assista também ao comentário de Arnaldo Jabor sobre o seu filme "A opinião pública"




No mês de agosto o filme que destaco é um clássico, "Aruanda", de Linduarte Noronha.


 Aruanda  1960/PB/Doc/22 min. Direção: Linduarte Noronha 

Aruanda é o filme sobre a Paraíba que mais se tem conhecimento. O filme cativou platéias de diversos lugares do Brasil e do mundo ao mostrar a realidade do sertão nordestino. Linduarte Noronha, diretor local, documenta a vida de descendentes de escravos que haviam fundado um quilombo. Nele, vivem à margem de qualquer outra civilização e se sustentam através do comércio de potes feitos de barro, que são vendidos em outro lugarejo distante. Em 1960, Aruanda ganhou o público de São paulo e Rio de Janeiro e, em pleno surgimento do Cinema Novo, mostrou ao resto do país a sua própria pobreza. Glauber Rocha, nome principal do movimento, declarou que o documentário o inspirou em seu filme principal, Deus e o Diabo na Terra do Sol. É interessante observar as condições precárias de produção e filmagem do filme. Por alguns foi vista como liberdade estética, a precariedade vista na tela é complemento do que Aruanda registra. A pobreza não é apenas dos personagens retratados, mas da própria obra. "Linduarte Noronha e Rucker Vieira entram na imagem viva, na montagem descontínua, no filme incompleto. Aruanda assim inaugura o documentário brasileiro nesta fase de renascimento que atravessamos..." (Glauber Rocha - Revisão crítica do cinema brasileiro)

Indico, também, para aqueles interessados em estudar o curta "Aruanda", ler o artigo de Glécia Carneiro Oliveira (Estudante de Comunicação Social pela Universidade do Estado da Bahia): "Aruanda e o Cinema Novo no Brasil".
O artigo traz uma abordagem curta e bem analítica (clique aqui)


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