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Escritora defende o meio ambiente em poesias e contos

No mês de Junho é comemorado o Dia do Meio Ambiente e, no Brasil, a data foi marcada por protestos contra o a reforma do nosso Código Florestal, que segundo especialistas, se aprovado, poderá causar grandes impactos ambientais. A escritora sãotiaguense, Ermínia de Carvalho Caputo Resende, também se manifestou, em Minas Gerais, a favor da causa. Aos 67 anos, a Orientadora Educacional e Professora Primária, escreve contos e poesias de exaltação à natureza e, em 2008, publicou o livro Acaso são estes os Sítios Formosos?. A obra narra à interação entre homens, com os quais ela conviveu na sua infância, com o meio ambiente rural e com os costumes regionais. Como a autora escreveu no prefácio do livro, há uma semelhança entre o conteúdo de seus escritos com o estilo dos Árcades no Brasil no século XVIII, sendo o próprio título do livro uma homenagem ao poema de Tomás Antônio Gonzaga: “Observando os textos de minha autoria, percebi a presença de muitos sítios formosos e amados”. Os seus poemas de exaltação, também, falam do pensamento iluminista, que abarcou a Inconfidência Mineira e influenciou os Árcades. O Observatório da Cultura visitou a chácara da escritora e fez uma entrevista.
Observatório da Cultura: O título do livro, lançado em março de 2008, foi retirado do poema “Acaso são estes os Sítios Formosos?” de Tomás Antônio Gonzaga. Qual a influência do Arcadismo em sua obra?
Ermínia Caputo: Na Escola Afonso Pena, em São Tiago, estudava-se muito o Arcadismo. Desde criança, as professoras nos ensinavam sobre a Inconfidência Mineira. E ao ler os meus textos percebi a presença de muitos sítios formosos, que relembravam o poema do árcade Tomás Antônio Gonzaga: ‘Acaso são estes os sítios formosos, aonde passava os anos gostosos? São estes os sítios? São estes; mas eu o mesmo não sou’.  É um poema bucólico e, recorda a passagem dos inconfidentes que chegavam a Ouro Preto e, também, em nossa região. O poema fala sobre as paisagens mineiras, cheias de penhascos, flores, rios e cascatas. Em Minas tudo se parece.
OC: Virgínia Maria Vasconcelos Leal, Doutora em Literatura Brasileira pela UnB, comentou sua obra com as seguintes palavras: “Memórias de uma infância que, por ser circunscrita a uma terra, torna-se universal também”. Quais são as lembranças de São Tiago e dos sítios que foram transformadas em poesias e contos em “Acasos são estes os Sítios Formosos?”
EC: São as lembranças de infância na casa da minha avó, na roça. Não tínhamos cavalo e ela me carregava em suas costas, subindo e descendo morros no Fundo da Mata, entre capins gordura. São recordações da luta de trabalho dos meus, que levantavam ás 4 horas para costurar e fazer pão, tudo muito artesanal... São muitas as reminiscências, também, da cidade e seus costumes, como novenas, terços cantados e leilões nas roças.
OC: Os poemas e contos abordam temas e costumes da cultura local. A linguagem utilizada nos versos é parte do vocabulário típico do interior mineiro. Contos, como por exemplo, “Benzê de quê”, que trata da fé e crença, foi escrito a partir de observações?
EC: ‘Benzê de quê’ é fruto do convívio com empregados. A linguagem que usei no texto é do grotão, da fala de arranco do costume do bendizer. Não havia médicos na cidade e o povo procurava os raizeros e benzedeiras para curar uma hemorragia, salvar um bezerro na roça... Chico Pintado falava: ‘para aprender benzer de mordedura de cobra, tem que ser picado por ela sete vezes’. O conto foi escrito a partir dessas observações.
OC: A exaltação a natureza, elemento presente nos poemas do Arcadismo, também são encontrados em seus versos sobre flores, frutos e sementes. Qual a sua relação com o campo?
EC: Antes de qualquer coisa na vida, me preocupo com o alimento. Nutrir o corpo é primordial. E na roça se aprende a conservar o alimento, tirar sementes do quiabo, do inhame... tirar o sustento da terra. As sementes secas duram anos. E escrevi muitos poemas que exaltam o costume de plantar flores e frutos, carregar bacias de verduras, típico das roças. Mas hoje o homem perdeu o catar a colheita, a sobra. O chique é jogar fora.
OC:A gastronomia mineira, relembrada no conto “Broas de Fubá”, foi escrito a partir da lembrança de seu pai, que foi padeiro em São Tiago? Essa culinária ainda hoje é feita nos moldes tradicionais que você descreveu?
EC:Sim. Escrevi poemas sobre as merendas que meu pai fazia. E ainda mantenho o costume em minha casa. Mas o forno de lenha quase não uso mais. Para usar o forno é preciso fazer merendas em grande quantidade e, o povo de hoje não quer coisa velha, armazenada nas latas. Isso me deixa triste. E penso, por exemplo, nos alemães que, após a guerra, passaram tanta fome que comiam farinha misturada com terra.
OC: Poemas como “Alacoque”, “Dona Gabriela” e “Caminheiras desde sempre” falam de mulheres guerreiras. Quem são essas mulheres?
EC: Essas mulheres são as minhas companheiras de luta. Elas me ajudaram a criar a família. São mulheres que faziam tachos de doce, crochê, que recebiam os tropeiros com latas de biscoitos, tabuleiros de toicinhos... O primeiro poema é para essas mulheres ‘Caminheiras desde sempre’, socorrendo umas as outras como anjos guardiões que não deixaram cair. Escrevi pensando no gênesis. Deus revela a força mulher com a Virgem Maria pisando no dragão... As mulheres de hoje deveriam conversar mais.
OC: Muitos versos questionam e comparam os tempos de hoje e outrora. Como entender essa relação entre os tempos sem cair em um saudosismo?
EC: O tempo é uma eternidade. Uso apenas recortes dele, na tentativa de que se permaneçam algumas coisas que possam nos redimensionar. A técnica existe desde tempos primitivos e auxilia os homens. Mas desde a descoberta do vapor na Inglaterra, acreditamos que a tecnologia vai resolver todos os problemas do mundo. E os meus textos são uma contraposição a esse endeusamento das máquinas modernas.
OC: Utensílios e objetos de decoração são poetizados a partir de suas funções não só primordiais, mas também estéticas. O conto “Balaios e suas histórias” trata da extinção da profissão de balaieiro. O artesanato em bambu que você descreve “de muitos tempos e de muitas utilidades” foi substituído pela produção em série?
EC: Os balaios de bambu, em alguns lugares ainda são utilizados com alguma função, ainda que não aquela primordial, de vasilhame para queijo, biscoito, ovo... Mas para nós veio o plástico. Escrevi não só sobre a função dos balaios, mas também sobre a arte presente nos artesanatos. O belo enche a alma e alivia as coisas da vida. Escrevi sobre trabalhos de cerâmica, crochê, sobre os brinquedos que os pais faziam para os filhos, como o carrinho de boi, sobre as profissões que quase não encontramos mais, a de balaieiros e de ‘bons celeiros’ de cavalo...
OC: Há uma influência do Iluminismo nos poemas Árcades. No conto “Luz” você faz uma alusão ao “Iluminismo, século das luzes” e uma analogia com o fogo, candeias e outras luzes. Porque esta analogia poética?
EC: A luz sempre existiu. Deus disse ‘Fiat lux’, faça-se a luz, e a luz foi feita. Das trevas surgiu a luz, essa é a primeira coisa do gênesis. Jesus, também, vira luz na transfiguração entre Elias e Moisés, e os apóstolos ficaram com as vistas ofuscadas. Meus textos sempre têm o sagrado imbuído. E a luz nas roças tem um significado místico, como a lenda da ‘Luz do Mundo’, a mulher que aparece como uma bola de fogo no mato... E o Iluminismo, para mim que tive a influência dos poetas Árcades, é, também, a luz que surgiu após as escuridões do pensamento medieval, como uma clareira.   
OC: Versos sobre a importância da preservação e cultivo da terra e do alimento permeiam o livro “Acasos são estes os Sítios Formosos”. Como você vê a questão ambiental do planeta, já que nesse mês de junho é comemorado o Dia do Meio Ambiente e, também estamos discutindo a polêmica do novo Código Florestal do Brasil?
EC: Na nossa própria cidade de São Tiago, no mês passado, foram cortadas árvores frutíferas da praça principal. Portanto não é só em Brasília, na discussão do novo Código Florestal, que vemos exemplo de governantes que são ‘ídolos de pés de barro’... Escrevi um poema para o abacateiro do meu quintal, ‘Verde escuro’, pensando em quantas barrigas ele alimentou, com seus 50 anos de existência. Escrevi, também, para o pé de Fruta do Conde, que demorou 20 anos para dar frutos e viveu somente cinco anos, mas deixou suas sementes, que já estão brotando... Vieram duas alemãs na minha casa e, voltando naquela conversa da guerra, achei interessante que elas comiam o que sobrava. Elas pediam para que eu guardasse o resto para que comessem depois. Nada deve ser desperdiçado, o alimento é, novamente, primordial.  
OC: Você publicará outros livros? Quando? E qual a temática?
Tenho muito material escrito, mas fica muito caro, e sem o devido apoio, não sei quando publicarei outro. Mas a temática continuará seguindo a proposta desse primeiro livro: exaltação à natureza e aos costumes tradicionais, com ares do arcadismo. 



Verde Escuro

Grandes bolas de casca
Verde escuro, envernizadas,
Dependuradas como em árvore
De natal.

Pujante vegetal
Que se agiganta
E toma conta do quintal.

Acrobatas estranhos
Povoam o grande edifício:
Tucanos, urubus,
Maritacas, micos e jacus.

Muitos... em apenas uma árvore.
Pra que derrubá-la?
Só por ser bonita e arrogante
E ter conseguido se sobressair?
Deixe-a. Que fique aí.






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